A "Outra" cogitou arracancar os próprios olhos.
Era por causa deles que brotava o ódio.
Eram eles que a permitiam ter acesso à dor.
Por que "Ela" queria tanto fazer aquilo, por que "Ela" queria tanto piorar o que já estava ruim?
A "Outra" enfrentaria uma chuva de perguntas feitas por si mesma e não conseguiria responder.
Não queria mais ver o que viria pela frente.
E tava só começando.
"De onde você vem?"
Quando "Ela" e a "Outra" se afastaram, havia um desejo enorme por parte da primeira em vingar-se. Não importava o quanto a "Outra" pedisse perdão e justificasse que elas haviam juntas decidido começar a brincar com a corda. O que valia para "Ela" era o que ela sentia, era o ódio e a repulsa, era a frustração, e era o amor, virado do avesso. As duas não tinham mais como como conversar. Era fato que agora qualquer atitude da "Outra" em reaproximar-se seria inútil. Muitas vezes ela tentava, mas "Ela" havia se transformado numa faca com ponta afiada e o resultado das tentativas da "Outra" eram sangue, sempre.
Mas "Ela" sabia que encontraria a "Outra" em algum momento.
E quando a vida as colocou no mesmo lugar, dias depois, "Ela" viu a oportunidade de utilizar a crueldade que havia crescido dentro de si de forma mais intensa.
Na frente da "Outra", emoldurou uma cena que seria inequecível na vida das duas. Uma marca, um ato que despedaçou a "Outra" e a tirou do controle como nunca antes.
"Ela" havia feito uma nova amiga, e na frente da "Outra", elas brincavam juntas.
Era daí que, posteriormente, a história nasceria em palavras e se faria acessível para outras pessoas. Da vontade de que fosse, ao menos, contada inteira.
Mas "Ela" sabia que encontraria a "Outra" em algum momento.
E quando a vida as colocou no mesmo lugar, dias depois, "Ela" viu a oportunidade de utilizar a crueldade que havia crescido dentro de si de forma mais intensa.
Na frente da "Outra", emoldurou uma cena que seria inequecível na vida das duas. Uma marca, um ato que despedaçou a "Outra" e a tirou do controle como nunca antes.
"Ela" havia feito uma nova amiga, e na frente da "Outra", elas brincavam juntas.
Era daí que, posteriormente, a história nasceria em palavras e se faria acessível para outras pessoas. Da vontade de que fosse, ao menos, contada inteira.
"De onde vem toda essa dor?"
A relação de "Ela" com a "Outra" ia durar pra sempre, não fosse pelo momento em que a corda apareceu e as dividiu.
Antes disso, se divertiam como ninguém. Todos sabiam que "Ela" era a "Outra", e vice versa. O mundo de uma estava dentro da outra e, portanto, o lugar em que moravam era construído por elas próprias, sem que outros pudessem entrar.
A dor brotava de um rompimento, da destruição cruel de um sentimento que existia em ambas. A "Outra" não havia conseguido parar de brincar com a corda, para ela pareceu irrestível por algum tempo fazê-lo. "Ela" não conseguia superar e esquecer.
Dentro de um lugar obscuro, de uma câmara silenciosa, no fundo de uma floresta enorme que, de repente, estava inteira se desfazendo em chamas, as duas sofriam por serem tão impotentes à situação. A dor poderia ser uma sensação abstrata, não fosse a realidade insuportável de sua existência, torná-la física. O corpo não aguentava segurar tudo dentro de si e transbordava um pouco do que dentro de cada uma se passava, com lágrimas. O peito estava dolorido, carregado. A angústia morava ali e não permitia que alguém a transportasse para outro lugar. Era um universo onde estava tudo o que preocupava e tudo que valia a pena. Era uma rainha, uma senhora, uma entidade a quem se respeita, assim como a tristeza.
A dor que elas sentiam era um estado de espírito que existia sem consentimento, dominava a razão e as fazia incapazes de vencer. Era como uma erva daninha que invade um jardim florido sem que ninguém se lembre de ter sido plantada uma semente.
A dor vinha do que elas estavam deixando pra trás. Vinha de um "adeus".
Mas é inútil dizer que "vinha", porque às vezes ela vem e fica.
Antes disso, se divertiam como ninguém. Todos sabiam que "Ela" era a "Outra", e vice versa. O mundo de uma estava dentro da outra e, portanto, o lugar em que moravam era construído por elas próprias, sem que outros pudessem entrar.
A dor brotava de um rompimento, da destruição cruel de um sentimento que existia em ambas. A "Outra" não havia conseguido parar de brincar com a corda, para ela pareceu irrestível por algum tempo fazê-lo. "Ela" não conseguia superar e esquecer.
Dentro de um lugar obscuro, de uma câmara silenciosa, no fundo de uma floresta enorme que, de repente, estava inteira se desfazendo em chamas, as duas sofriam por serem tão impotentes à situação. A dor poderia ser uma sensação abstrata, não fosse a realidade insuportável de sua existência, torná-la física. O corpo não aguentava segurar tudo dentro de si e transbordava um pouco do que dentro de cada uma se passava, com lágrimas. O peito estava dolorido, carregado. A angústia morava ali e não permitia que alguém a transportasse para outro lugar. Era um universo onde estava tudo o que preocupava e tudo que valia a pena. Era uma rainha, uma senhora, uma entidade a quem se respeita, assim como a tristeza.
A dor que elas sentiam era um estado de espírito que existia sem consentimento, dominava a razão e as fazia incapazes de vencer. Era como uma erva daninha que invade um jardim florido sem que ninguém se lembre de ter sido plantada uma semente.
A dor vinha do que elas estavam deixando pra trás. Vinha de um "adeus".
Mas é inútil dizer que "vinha", porque às vezes ela vem e fica.
O que ELAS diriam
Sei que enxerguei tarde
a alegria acabou
pra mim ela era você
posso levantar da cama, se for pra te encontrar
enfrentar a fúria do mundo
mas não a sua
me consome a saudade, mais o vazio
achei que a alegria estava na corda
queria ter escapado
não soube como
não pude ir até lá
me perdoa
Te amo
--
Quero que você morra
Eu nunca vou perdoar você
você me preteriu
você me destruiu
estragou tudo
você nunca mais vai me ter
e eu nunca mais vou te ouvir
Te amo.
--
a alegria acabou
pra mim ela era você
posso levantar da cama, se for pra te encontrar
enfrentar a fúria do mundo
mas não a sua
me consome a saudade, mais o vazio
achei que a alegria estava na corda
queria ter escapado
não soube como
não pude ir até lá
me perdoa
Te amo
--
Quero que você morra
Eu nunca vou perdoar você
você me preteriu
você me destruiu
estragou tudo
você nunca mais vai me ter
e eu nunca mais vou te ouvir
Te amo.
--
2
Não fosse pela vontade de um dia tê-la de volta, a "Outra" já teria ido embora dali. Ventava, chovia e tudo ia pelos ares. A "Outra" se agarrava numa árvore com esperanças de que pudesse resistir, mas estava difícil demais. A terra tomava o ar e entrava em seus olhos, ela quase já não enxergava mais. "Ela" assistia a cena da janela fechada de sua casa, podia permitir que a "Outra" entrasse , mas preferia vê-la tombar no chão. A nova "Ela" era fria, era cruel, irreconhecível. Ainda amava a "Outra", o que podia fazer? Não escolhia o que estava dentro de si, mas sabia controlar seu estado gelado com poder babélico. Observava a "Outra" com a satisfação de quem se sente vingada.
A corda, agora presa num tronco jogado ao chão, ainda era motivo de discórdia entre as duas.
Enfraquecida, a "Outra" não resistiu, foi até ela e a utilizou novamente para segurar-se à árvore em meio ao vendaval. "Ela" se enfurecia ainda mais ao ver as duas juntas novamente.
A corda, agora presa num tronco jogado ao chão, ainda era motivo de discórdia entre as duas.
Enfraquecida, a "Outra" não resistiu, foi até ela e a utilizou novamente para segurar-se à árvore em meio ao vendaval. "Ela" se enfurecia ainda mais ao ver as duas juntas novamente.
1
E aí, Ela foi até a beira do pier. Era linda, mas sentia-se só, abandonada. A Outra passava as tardes distraída brincando com uma corda que, dias antes, era das duas.
Dava pra ver como Ela estava a um pouco de cair, mas seu olhar ainda clamava por socorro. Estava dando passos à dias, lentamente, um a um, rumo à borda que divide a madeira do ar, o ar da água.
Olhava pra trás, para a Outra, para aquela que considerava sua vida, chamava seu nome, em vão. A Outra, que sempre havia cuidado Dela, estava impotente, como nunca esteve antes. Havia se enroscado e agora tinha a corda envolvendo o corpo da ponta dos pés ao pescoço.
Ela virou o corpo como quem pergunta pela última vez: "você não vai mesmo me salvar?".
E a Outra, sem saber o que fazer, deixou escorrer um mar de lágrimas pelo seu rosto, sem que precisasse piscar.
Elas se enxergavam, estavam juntas, abraçadas, num plano outro, mas não naquele, não naquela hora.
A Outra não tinha forças pra se libertar, e não sabia, não tinha idéia, de como faria isso.
Ela tirou o primeiro pé do pier, que ficou suspenso por um tempo breve. Em seu rosto também víamos o quão dolorido era ter que morrer ali. Ela não queria, mas dependia de uma escolha, dependia do socorro da Outra.
Então, Ela sorriu desolada enquanto também chorava, e jogou o peso do corpo pra frente. Caiu. Em silêncio. Afundava na água e por ali o corpo ficou, imerso. A dor arrebentava o peito da Outra, era maior do que ela, era maior que qualquer coisa. O grito foi tamanho que alcançou os animais da floresta. Alguns vieram, solicitos, e fizeram o possível para libertarem-na do nó, outros olhavam apenas e comentavam o fato entre si. Ela foi julgada por eles, por ter brincado tanto tempo com a corda e também por não ter percebido que se enroscava a cada minuto que passava.
A Outra, quando se viu em liberdade, correu, como pôde, rumo ao pier. E de lá viu, a razão de si própria, afogada. Por dias ficou ali.
Ela , no entanto, renasceu. Mas não era a mesma, não seria nunca. O que elas tinham havia acabado e qualquer que fosse a relação que pudessem estabelecer agora, o caminho era longo demais pra se enxergar. O olhar Dela para a Outra era a de quem não a reconhecia mais.
Dava pra ver como Ela estava a um pouco de cair, mas seu olhar ainda clamava por socorro. Estava dando passos à dias, lentamente, um a um, rumo à borda que divide a madeira do ar, o ar da água.
Olhava pra trás, para a Outra, para aquela que considerava sua vida, chamava seu nome, em vão. A Outra, que sempre havia cuidado Dela, estava impotente, como nunca esteve antes. Havia se enroscado e agora tinha a corda envolvendo o corpo da ponta dos pés ao pescoço.
Ela virou o corpo como quem pergunta pela última vez: "você não vai mesmo me salvar?".
E a Outra, sem saber o que fazer, deixou escorrer um mar de lágrimas pelo seu rosto, sem que precisasse piscar.
Elas se enxergavam, estavam juntas, abraçadas, num plano outro, mas não naquele, não naquela hora.
A Outra não tinha forças pra se libertar, e não sabia, não tinha idéia, de como faria isso.
Ela tirou o primeiro pé do pier, que ficou suspenso por um tempo breve. Em seu rosto também víamos o quão dolorido era ter que morrer ali. Ela não queria, mas dependia de uma escolha, dependia do socorro da Outra.
Então, Ela sorriu desolada enquanto também chorava, e jogou o peso do corpo pra frente. Caiu. Em silêncio. Afundava na água e por ali o corpo ficou, imerso. A dor arrebentava o peito da Outra, era maior do que ela, era maior que qualquer coisa. O grito foi tamanho que alcançou os animais da floresta. Alguns vieram, solicitos, e fizeram o possível para libertarem-na do nó, outros olhavam apenas e comentavam o fato entre si. Ela foi julgada por eles, por ter brincado tanto tempo com a corda e também por não ter percebido que se enroscava a cada minuto que passava.
A Outra, quando se viu em liberdade, correu, como pôde, rumo ao pier. E de lá viu, a razão de si própria, afogada. Por dias ficou ali.
Ela , no entanto, renasceu. Mas não era a mesma, não seria nunca. O que elas tinham havia acabado e qualquer que fosse a relação que pudessem estabelecer agora, o caminho era longo demais pra se enxergar. O olhar Dela para a Outra era a de quem não a reconhecia mais.
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