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E aí, Ela foi até a beira do pier. Era linda, mas sentia-se só, abandonada. A Outra passava as tardes distraída brincando com uma corda que, dias antes, era das duas.
Dava pra ver como Ela estava a um pouco de cair, mas seu olhar ainda clamava por socorro. Estava dando passos à dias, lentamente, um a um, rumo à borda que divide a madeira do ar, o ar da água.
Olhava pra trás, para a Outra, para aquela que considerava sua vida, chamava seu nome, em vão. A Outra, que sempre havia cuidado Dela, estava impotente, como nunca esteve antes. Havia se enroscado e agora tinha a corda envolvendo o corpo da ponta dos pés ao pescoço.
Ela virou o corpo como quem pergunta pela última vez: "você não vai mesmo me salvar?".
E a Outra, sem saber o que fazer, deixou escorrer um mar de lágrimas pelo seu rosto, sem que precisasse piscar.
Elas se enxergavam, estavam juntas, abraçadas, num plano outro, mas não naquele, não naquela hora.
A Outra não tinha forças pra se libertar, e não sabia, não tinha idéia, de como faria isso.
Ela tirou o primeiro pé do pier, que ficou suspenso por um tempo breve. Em seu rosto também víamos o quão dolorido era ter que morrer ali. Ela não queria, mas dependia de uma escolha, dependia do socorro da Outra.
Então, Ela sorriu desolada enquanto também chorava, e jogou o peso do corpo pra frente. Caiu. Em silêncio. Afundava na água e por ali o corpo ficou, imerso. A dor arrebentava o peito da Outra, era maior do que ela, era maior que qualquer coisa. O grito foi tamanho que alcançou os animais da floresta. Alguns vieram, solicitos, e fizeram o possível para libertarem-na do nó, outros olhavam apenas e comentavam o fato entre si. Ela foi julgada por eles, por ter brincado tanto tempo com a corda e também por não ter percebido que se enroscava a cada minuto que passava.
A Outra, quando se viu em liberdade, correu, como pôde, rumo ao pier. E de lá viu, a razão de si própria, afogada. Por dias ficou ali.
Ela , no entanto, renasceu. Mas não era a mesma, não seria nunca. O que elas tinham havia acabado e qualquer que fosse a relação que pudessem estabelecer agora, o caminho era longo demais pra se enxergar. O olhar Dela para a Outra era a de quem não a reconhecia mais.

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