A relação de "Ela" com a "Outra" ia durar pra sempre, não fosse pelo momento em que a corda apareceu e as dividiu.
Antes disso, se divertiam como ninguém. Todos sabiam que "Ela" era a "Outra", e vice versa. O mundo de uma estava dentro da outra e, portanto, o lugar em que moravam era construído por elas próprias, sem que outros pudessem entrar.
A dor brotava de um rompimento, da destruição cruel de um sentimento que existia em ambas. A "Outra" não havia conseguido parar de brincar com a corda, para ela pareceu irrestível por algum tempo fazê-lo. "Ela" não conseguia superar e esquecer.
Dentro de um lugar obscuro, de uma câmara silenciosa, no fundo de uma floresta enorme que, de repente, estava inteira se desfazendo em chamas, as duas sofriam por serem tão impotentes à situação. A dor poderia ser uma sensação abstrata, não fosse a realidade insuportável de sua existência, torná-la física. O corpo não aguentava segurar tudo dentro de si e transbordava um pouco do que dentro de cada uma se passava, com lágrimas. O peito estava dolorido, carregado. A angústia morava ali e não permitia que alguém a transportasse para outro lugar. Era um universo onde estava tudo o que preocupava e tudo que valia a pena. Era uma rainha, uma senhora, uma entidade a quem se respeita, assim como a tristeza.
A dor que elas sentiam era um estado de espírito que existia sem consentimento, dominava a razão e as fazia incapazes de vencer. Era como uma erva daninha que invade um jardim florido sem que ninguém se lembre de ter sido plantada uma semente.
A dor vinha do que elas estavam deixando pra trás. Vinha de um "adeus".
Mas é inútil dizer que "vinha", porque às vezes ela vem e fica.
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